O jornalista que a Operação Lava Jato pariu e que está sempre do lado dos poderosos

Por que a mídia paranaense ignora greve de fome dos educadores do estado do Paraná "



        15 de novembro, dia do primeiro turno das eleições municipais, na República de Curitiba, onde o pleito já se mostrava decidido, jornalistas acompanhavam a votação do ex-juiz da Lava Jato, ex-ministro de Bolsonaro e ex-professor de direito, Sérgio Moro, em busca de uma manchete para salvar a pauta. 

          Luzes, câmeras, microfones e o ex-tudo disparou: “Deixei jornalista e advogado ricos” na Lava Jato. Pronto, manchete na Folha de São Paulo.

          Três dias depois das eleições, um grupo de professores ocupou a Assembleia Legislativa do Paraná, em protesto contra a intenção da Secretaria Estadual de Educação de contratar temporariamente profissionais de ensino para o Paraná. Os professores defendem a realização de concurso público para corrigir o déficit de 20 mil profissionais nas escolas estaduais.

          Como o governo estadual controla os principais meios de comunicação no Paraná, as notícias publicadas sobre a ocupação do legislativo paranaense foram em tom de crítica e deboche, chamando os professores de sindicalistas baderneiros, com medo de fazer a prova.

          O comentário mais contundente foi protagonizado pelo jornalista Marc Souza, da Ric TV Record de Curitiba, da Rádio Jovem Pan Paraná e do site Ric Mais. Esses veículos de comunicação têm histórico de alinhamento com grupos conservadores e evangélicos. 

          Já o jornalista Marc Souza tem outra história. Filho de mãe descendente de polacos católicos e de pai originário do Nordeste. O pai, acredite, ainda é professor e militante de esquerda, com atuação sindical, partidária e social. O filho, sim, Marc Souza, também militou em um grupo socialista no tempo do movimento estudantil.

          Segundo os mais chegados ao jornalista, ele não teria mudado o seu jeito de pensar. O que pesa agora é que Marc Souza precisa dizer não o que ele pensa, mas sim o que os donos dos meios de comunicação querem que ele diga. Afinal, os patrões é que pagam o salário do ex-jovem socialista.

          O primeiro patrão de Marc Souza foi o apresentador  Ratinho, funcionário do SBT, garoto-propaganda do presidente Bolsonaro,  pai do governador do Paraná e dono da Rede Massa.  Na tv do Ratinho, Marc conheceu e trabalhou com a deputada federal Joyce Hasselmann do PSL, o vereador eleito na capital paranaense Denian Couto do Podemos, o deputado federal Paulo Martins do PSC e o ex-candidato a governador do Paraná pelo PSL Ogier Buchi. Essa foi a escola de Marc Souza.

          Na época, todos faziam o papel de jornalistas polêmicos que defendiam as pautas contra Lula e o PT. Todos viraram políticos, menos Marc. Ele preferiu mudar de patrão. O próximo foi Joel Malucelli,  da Rádio Band News de Curitiba. 

          O megaempresário, pego pelo Ministério Público do Estado, numa operação contra corrupção, escapou da prisão na Lava Jato onde era suspeito de superfaturamento na construção da usina de Belo Monte. Muitos garantem que era pela amizade com ex-juiz Moro, de quem teria sido informante. 

          Na época, Joel proibiu a emissora em que Marc trabalhou de divulgar alguns grampos telefônicos em que o ex-juiz comentava algumas prisões em tom pejorativo. Para preservar o amigo.

          Uma das televisões de Malucelli também controla a produção de conteúdo da TV Assembleia do Paraná. No dia da ocupação do legislativo pelos professores, a emissora estava fora do ar.

          Entre um emprego e outro, Marc decidiu estudar direito na mesma universidade particular que contratou o professor Sérgio Moro, quando ele deixou a Universidade Federal do Paraná. Pronto, agora o jovem ex-socialista, além de jornalista também é advogado. Mas ainda não rico.

          A cobertura diária da Lava Jato deixou Marc Souza famoso no meio político e jornalístico. Foi contratado pelo Rede Record  do Bispo Edir Macedo como correspondente em Curitiba. Além disso, ganhou um programa diário na Rádio Jovem Pan do Paraná e uma coluna no portal Ric Mais.

          A pauta sempre foi a mesma. Criticar a esquerda e seus representantes, mesmo que fossem eleitos democraticamente. Demonizar os sindicalistas. E promover os baluartes da direita. O Facebook do ex-jovem socialista está cheio desses momentos brilhantes. 

          Fotos com Moro e a esposa, ao lado de jornalistas que se tornaram famosos na Jovem Pan São Paulo e nos sites de direita, de entrevistas com Jair Bolsonaro, Delagnol. E não foi uma vez só. Foram várias.

          Atualmente, a Ric Tv Record é reconhecida como uma emissora auxiliar da Rede Massa, a televisão do governador Ratinho Júnior. Pra evitar que a tv do governador seja chamada de chapa branca, muitas vezes Ratinho Júnior chama a Ric Tv para gravar entrevistas exclusivas. E até para fazer negócios público-privados.

          Por curioso que pareça, o departamento comercial da Ric Tv Record passou a ser dirigido por um profissional que dirigia o departamento comercial da Rede Massa, um mês após o início do governo Ratinho Júnior. 

          Quando começou a pandemia e o ensino passou a ser on-line, o grupo Ric ganhou o direito de transmitir essas aulas.

          Portanto, o ex-jovem idealista e socialista Marc Souza é hoje um jornalista pragmático, que fala o que o patrão manda. E o patrão tem muitos interesses em comum com o governo do Estado, principalmente na educação.

          Vivendo e aprendendo. E lembrando que tudo começou com a Lava Jato e seus personagens. Os heróis da direita, paladinos da justiça, e os bandidos da esquerda. Para uns, os holofotes, cargos públicos. Para outros, a cadeia, a chacota. 

          Alguém tem dúvida que Moro tinha razão sobre ter ajudado jornalista e advogado a se dar bem na vida? Desculpa aí, papai

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Julio Take

Júlio Take, nasceu em Maringá-Paraná em 1967. Teve a primeira experiência profissinal em 1986, no O Jornal de Maringá. após essa primeira experiencia, trabalhou um tempo em Cascavel e Foz do Iguaçu. Após alguns anos militando na imprensa da região oeste do estado do Paraná, foi convidado a integrar a equipe da Agência de Notícias News.

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